Ser para depois fazer

Ele é o único griô do Hip Hop brasileiro – termo usado para mestres em oralidade sobre alguma expressão da cultura negra -, e foi o primeiro no Sul do país, em 1989, a dar oficinas sobre esta cultura, que está presente em boa parte das periferias de todo o mundo. Quando o movimento começou a crescer por aqui, ele prestou vestibular em história e ingressou numa ONG. Pesquisando viajou para vários estados. Fez todos os cursos nacionais de formação do Hip Hop. Preferiu trabalhar e viver no interior do RS e, hoje, mora em Santo Antônio da Patrulha. Este ano, resolveu voltar a dar aulas em Porto Alegre. Pela primeira vez na Descentralização, Luis Augusto Alencar, ou simplesmente Guto, vem de moto duas vezes por semana para as oficinas da Vila Cruzeiro.
Nós o acompanhamos numa tarde na Associação dos Moradores da Rua Prisma. A turma é grande e interessada. Ele interrompe a dança e forma uma grande roda para conversarmos. Guto é rígido e chama a atenção das crianças. Repete que só se tem atitude quando se domina aquilo que está fazendo. Perguntado sobre o significado de consciência, obtém a resposta de um dos alunos: “Pessoas que estudam antes de fazer”.
A educadora do SASE, que trabalha no local, diz que todas as crianças adoram a aula, porque o oficineiro não ensina somente a dança, mas explica quantas vezes for necessário sobre tudo que envolve o seu trabalho e sua arte. Adalú Boanova completa: “Pra essas crianças, acho que neste momento esta oficina é tudo”.
A entrevista com Guto foi longa, e publicamos aqui apenas um pequeno trecho.
Nós temos no Hip Hop uma geração que quer conhecimento, mas não lê. Essa geração busca conhecimento na música e a gente sabe que não se busca conhecimento em música.
Por quê?
Não tem como uma música ser mais importante que um livro. Eu cantar Malcolm X é uma coisa e estudar Malcolm X é outra. Um dos problemas do movimento Hip Hop é que não se conhece a parte literária, se conhece muito a musicada, ou seja, 100% música e literatura zero. Eu considero que nós temos uma geração bem informada, mas sem formação.
Como é este seu trabalho de estudar, pesquisar sobre o Hip Hop?
Eu comecei a pesquisar, mesmo tendo material guardado, quando comecei a participar de palestras e debates. Comecei a ver que não tinha conhecimento sobre o que estava fazendo. Eu era um cara muito bem informado, mas não tinha formação para educar. O Hip Hop é meu instrumento de trabalho, meu instrumento de educação. Comecei a sacar que a linguagem do Hip Hop me leva a lugares que outros segmentos não levam.
O Rap é um discurso em cima de uma música. Significa Rhythm and Poetry (ritmo e poesia), ou seja, uma fala em cima de um ritmo. Então, a proposta e a função do RAP é esta mesma, ter um discurso e fazer uma crítica. Não é uma música, é um discurso, é uma trilha sonora para um movimento cultural. Eu considero o Rap como um Samba-enredo, onde uma escola tem uma temática e todos os sambas que se cantam nos ensaios são ligados à temática daquela escola. Assim é o Rap com a cultura Hip Hop. Ele é ligado à temática do movimento cultural.
Qual a função social da arte?
A arte tem várias funções sociais. O Hip Hop serve muito bem como instrumento de educação e autoconhecimento. Não vejo outra proposta e, deve ser por isso que está tão forte nas periferias do mundo.

E como está a oficina? O que estás conseguindo?
É difícil no começo. Eu tenho a mídia a meu favor e, depois, tenho ela contra, porque tu colocas Hip Hop e lota! Aí, tu trabalha o Hip Hop da maneira correta e 70% dos alunos desistem, porque eles querem o Hip Hop da mídia, e não como ele é. Essa é a dificuldade. Porque o pessoal vinha pra aula achando que ia dançar, cantar, e na realidade não é isso. A palavra consciência significa “com conhecimento”, “com ciência”, com estudo. Quem tem conhecimento, estudo sobre alguma coisa, sobre aquilo que está fazendo, automaticamente vai ter atitude. E as crianças captaram bem isso.
Teve alguém que desistiu da aula por conta dessa proposta?
Aqui não desistiram porque as crianças são muito carentes, então acabam se sacrificando para poderem ter uma aula de Hip Hop. Porque elas não têm oportunidades.
Se sacrificam em que sentido?
Se sacrificam porque não estão acostumadas a sentar e ler. Não estão acostumadas a vir para uma aula de Hip Hop para escrever, e eu faço escreverem, faço lerem, trabalho com data, fica didático, fica parecido demais com a escola. Claro que não é igual, mas tem coisas que eu não posso fugir da pedagogia.
Mas tem atividade lúdica também, tem a dança?
Tem! É que, depois, em conseqüência, eles dançam melhor, porque sabem o que estão fazendo. Melhora tudo, porque tu trabalhas o ser humano, e o ser humano é a base de tudo. O ser humano é que produz a cultura e não o contrário. Não é porque eles fazem um rap ou uma street dance legal que vão ser pessoas melhores. É o oposto! É sendo uma pessoa melhor que tu produz uma coisa melhor. Foi assim que eu aprendi, e eles tão sacando isso, que não é fazer o bonito. É ser para depois fazer.
Imagens para produzir e pensar

Estamos trabalhando com a turma do Projeto Educativo da AMAVTRON – adolescentes com idades entre 13 e 15 anos e que já participam de diversas atividades na Associação. A turma é pequena, 11 alunos, mas muito criativa.
Nossa idéia é fazer da oficina um espaço para produzir e pensar imagens, a partir de técnicas alternativas como a fotografia pinhole, mas sem excluir a fotografia digital. Para além da produção, buscamos também formas de divulgação das imagens e de alguns textos produzidos em aula: já realizamos uma pequena exposição de fotos na festa junina da Associação, publicamos um blog com imagens e textos e atualmente estamos projetando uma publicação desse material, talvez na forma de fanzine.
Procuramos trabalhar com temáticas que surgem a partir da relação deles com a fotografia, da nossa relação como grupo e também a partir de sugestões dos educadores da AMAVTRON. Assim, já produzimos imagens de auto-retratos, da comunidade e uma pequena série sobre a questão do lixo na região.
Para conferir o resultado de nossa oficina na internet:
http://www.fotonalata-amavtron.blogspot.com/
Contato: latamagica@gmail.com
Por Paula Biazus e Rafael Johann (colaborador da oficina)


Capoeira educa, capoeira é família

Entrevista com Ari Rodrigues (Gororoba)
Qual a proposta da oficina?
Desenvolver este lado social que a capoeira tem, mas também o cultural, explicar de onde veio aos procedimentos de roda, como é que funciona a hierarquia do respeito ao mais velho.
O problema hoje é que a gurizada não tem muito acesso, então, no começo é um pouquinho difícil. Tu consegue trazer eles mais pra perto, passa aquela imagem do mestre, do professor como um divulgador da cultura.
Na Figueira, contei a história de quando comecei, o meu primeiro berimbau era um pau de goiabeira com arame de cerca e uma latinha de leite Ninho, porque não tinha condições, nem sabia onde encontrar porongo. E tu chega lá na vila hoje, vê as crianças andando pra cima e pra baixo batendo um berimbau neste padrão. Estou vendo uma forma de levar um berimbauzinho pra eles.
Tô vendo que eles estão se identificando muito. Porque das duas uma, ou eles estão na capoeira ou estão na esquina ou no campinho. A capoeira tá entrando na vida deles. Valorizo muito a capoeira preventiva mesmo.
O que encanta as crianças e adolescentes na capoeira?
A roda, que é o ponto máximo. Até chegar na roda, tem que vir preparando a cabecinha deles. Geralmente, o pessoal bota aluno jogando contra o outro. Nosso objetivo é jogarem um com os outros, não contra. É um ajudando o outro a desenvolver seu potencial, sua esquiva, sua velocidade, flexibilidade.

A capoeira é rica em todos os aspectos: teatral, musical, expressão corporal, social, psicológico. Tem tudo, agrega tudo. É o esporte mais completo. Pra jogar, tem que pensar: respira, observa, acha, toma uma atitude. Tem que ter coordenação, tocar, cantar, jogar, interagir com os colegas. Então, quando fala em roda eles ficam enlouquecidos, e tem todo um procedimento, uma hierarquia, disciplina, toda uma cultura por trás.
É uma família, na realidade. O trabalho é bem familiar, respeito pelo mais velho e entre eles também. São colegas que são como irmãos, o maior respeitando a vez do menor e vice-versa. Os que já estão levando mais jeito, se começa a trabalhar com a musicalidade dos instrumentos, berimbau, pandeiro, um atabaque. Tudo é conquista.
E a arte, a cultura pode ajudar a transformar uma realidade?
Transforma! Tem que mostrar caminhos e opções, que quando estão ali, não estão na rua tomando tapa da polícia. Não tem erro. E ali eles têm opção de aprender algo mais, futuramente serem divulgadores da capoeira também. Como qualquer outro esporte, ela abre uma porta, mas tem que se dedicar, tem que ter uma cabeça boa, leva um tempo, precisa de uma boa orientação.
Como a capoeira está dentro da cultura brasileira, qual reconhecimento tem?
Hoje o apoio é muito pouco. Não tem a valorização que devia. Trabalha com o lado social, educativo, cultural, esportivo, preventivo, com o psicológico. Poderia ter um apoio bem melhor. Porque tu vê que, com a capoeira, tu entra em qualquer lugar, na “boca”, nas camadas sociais mais altas… Ela abre muitas portas.
Na realidade, para você poder viver de capoeira tem que ter um salário digno, porque tu é um representante da cultura, de uma arte. E quando se está à frente, passando idéias para os alunos, principalmente nas periferias, as pessoas estão te olhando, observam o tênis que tu tem, a camisa que veste, se tu tá cheiroso, a aparência. Os alunos cuidam muito disso e tendem a se espelhar em alguém. E tu, como professor, tem que passar alguma coisa boa. Eles ficam te olhando, a gente nota.
Tu tem o poder de transformar as pessoas através da capoeira, mas primeiro tem que matar a cobra, mostrar o pau e mostrar a cobra. Não adianta falar para o aluno que o esporte é saúde e sair dali e ir pro boteco tomar cachaça, ou terminar a aula e fumar um cigarro. Qual o exemplo que vai dar pro aluno?
Tu começa a identificar a comunidade em que está trabalhando e a comunidade abraça, se o cara tem o trabalho bom, é verdadeiro, tá sempre envolvido. Tem que se envolver. Não adianta ir lá duas vezes, dar a aula e ir embora. Tem que conversar com os pais, saber o que está acontecendo na comunidade.

É, antes de tudo, um trabalho de educação…
Sempre é educação. Capoeira é família. Na realidade, educação a gente aprende em casa. Quando não tem em casa quem te oriente, tu busca noutro lugar. Por isso, às vezes, tu vê muitos jovens no tráfico. O traficante te acolhe porque precisa de um funcionário, um “aviãozinho”. E o jovem encontra ali, às vezes, naquele espaço, um pai que cuida dele. Claro, que em muitos casos na família, o pai tem que trabalhar, a mãe tem que trabalhar, o irmãozinho mais velho cuida dos mais novos, então amadurece muito rápido. É muito complicado trabalhar com cultura no Brasil assim.
No Brasil, temos mestres velhos morrendo na indigência, sem nada, em pleno século XXI. Infelizmente, a gente tem essas histórias pra passar pros alunos. Então, eu sempre aconselho meus alunos a não viverem de capoeira. Eu posso me dar esse luxo, sem passar dificuldade, mas quero que eles estudem, se formem em alguma coisa e possam ajudar a capoeira. É que ninguém dá o que não tem. É difícil querer ajudar se não tiver.
Quero que eles sejam profissionais. Os mestres da capoeira todos tinham outra profissão, trabalhavam de vendedor ambulante, em açougues, peixarias, eram estivadores. Porque não tinham condições de estudar como temos hoje.
Você acha que as oficinas da Descentralização são importantes, fazem a diferença nos lugares?
Fazem, porque elas abrem muitas portas pra quem realmente precisa. Essas oficinas são de grande valia. Quando tu representa uma secretaria é muito mais fácil pra poder chegar, é importante. Mas, poderia ser melhor se as próprias secretarias tivessem mais apoio dos governos.
Entre o trabalho e a oficina
Tenho uma oficina na Cachorro Sentado, que não é demanda do OP, mas devido a necessidade da Vila. Porque nosso grupo de teatro (Associação Povo da Rua) tem como indicativo sempre trabalhar com o entorno. Ocupamos um espaço dentro do Hospital Psiquiátrico São Pedro.
Eu tô há três anos na Cachorro Sentado. São crianças filhas de pessoas que trabalham com reciclagem, jardineiros, pessoas de muito baixa renda. Nesse terceiro ano deu pra ver o quanto o trabalho contínuo é necessário.
Enfrentei dificuldade no início pra implementar a oficina, devido a desorganização. A Vila tem representantes no OP, mas eles têm outras demandas, não tem a demanda das oficinas de arte.
Pra ir às oficinas, as crianças precisam fazer algum sacrifício, que é deixar de trabalhar, ou deixar de estar com a família. Muitas vezes, eu chego e as meninas estão limpando, cuidando da casa, ou tão fazendo alguma coisa para os pais (estão sempre fazendo alguma coisa para os pais). Então elas negociam, tipo: “Bah, profe, espera um pouquinho!”. Muitas vezes eu atraso a oficina esperando uma delas terminar um serviço.
Fazem reciclagem junto com os pais, ou estão esperando eles chegarem, porque se organizaram para fazer a oficina. Agora é assim, mas no início eu chegava lá e ficava uma hora esperando, percorria a casa de todo mundo. Eu ainda percorro a casa de todo mundo. É maternalista? É. Mas é educativo também. Então, tem a história de estar conscientizando, é uma relação de amizade. A gente faz uma vaquinha pra comprar um salgadinho e um refri pra no final da oficina comer junto. É importante o comer junto. Quando tu quer desenvolver um trabalho de grupo que se fortaleça mesmo, provoca uma alimentação junto. A Bíblia já ensina isso.
Atualmente, eu só encontro elas uma vez por semana, antes eram duas. Eu dividi as oficinas, uma vez por semana é para as mulheres, na Vila São Miguel. Agora, sinto que estão mais unidas. E sempre tô falando que não podem faltar, que tem que trazer mais gente. Elas também são responsáveis. “Se vocês não fazem a oficina, não existe”, digo. E, aí, elas se organizam cada vez mais.
Às vezes, também levo elas pra ver teatro, quando consigo liberação de ingresso. Tô sempre buscando fazer atividade de capoeira, mas se eu posso levar num show musical que é pra criança, eu levo. Não vou fechar o mundo delas a uma coisa só.
Depoimento da oficineira Alessandra Malheiros
Pra saber rodar o som
Estou no terceiro ano como oficineiro e nos anteriores dei aula de música. Mas visualizei a grade das oficinas que tem teatro, dança, música, capoeira, vídeo, e não tem áudio. E essas áreas precisam de som. O cinema tem a banda do áudio onde se gera ruídos, efeitos. O vídeo sem áudio é cinema mudo.
Pela aproximação com pessoas que necessitam mexer em equipamentos, algumas perguntavam onde fazer cursos nessa área. Então, propus a oficina.
A idéia é trazer a prática para pessoas que têm dificuldades com sistemas novos, em lidar com equipamentos domésticos, que lidam com vídeo cassete, CD, DVD. A partir do momento que a pessoa sabe conectar uma fiação de caixas de som, por exemplo, já vai começar a ter uma noção do áudio como um todo. São essas informações básicas que tornam as coisas mais interessantes.
As pessoas que participam vão ter melhor entendimento sobre porque a fita K7 anda, sobre MD, fitas DAT. Bem, agora só se trabalha com laptop, computador… No começo o pessoal foi pra mesa de som, aprendeu a fazer as ligações, cabeamento e microfonação, fiação…
A oficina não é profissionalizante, não se forma um técnico, mas o aluno vai sair preparado para encarar o trabalho. Vamos estudar técnicas, aprender algumas teorias. Não se pode trabalhar algumas ações sem base.
Nesta oficina trabalho com adolescentes e adultos. O adolescente tem facilidade de lidar com a internet, com as mídias. Quem já tem mais idade fica um pouco teimoso em aprender, mas não dá pra ficar inibido por causa da tecnologia. Faço um trabalho que vai servir pra todos, mesmo que tenham objetivos diferentes.
Depoimento do oficineiro George Foques
Aluno Peterson Souza, 14 anos:
Fiquei sabendo da oficina pelo meu pai, que tem uma empresa de som. A gente bota som em festas, aniversários, 15 anos, formaturas. Me interesso, quero saber como funciona. Nós dois estamos fazendo a aula. A gente aprende coisas novas e também relembra outras. Tá ajudando no trabalho.
A matemática dos malabares
Pode até parecer estranho, mas arte também é matemática. Dois, dois e um ou três, três e três são apenas duas das infinitas combinações dos malabares. É técnica, que trabalha com as energias do movimento e do tempo. Renata faz pausas enquanto pensa, não tem todas as respostas, mas tem uma história muito boa pra contar.

Estudava jornalismo por causa da fotografia, mas estava um pouco decepcionada. Tranquei a faculdade e fui pra São Paulo. Lá, fotografando uns malabaristas no Ibirapuera descobri o malabares. Comecei a treinar lá mesmo.
Voltei pra cá e jogava no intervalo das aulas. Aí, uma menina na faculdade me entregou um panfleto pra fazer uma oficina. Comecei a fazer todas as oficinas que apareciam por aqui e, desde 2001, participo das convenções brasileiras de malabares. Eu não desisti do jornalismo (me formei em 2003, na PUC), só tento me expressar através de uma arte diferente.
Se comunicar através do malabares é bem visual. Quando estão vendo, é uma ilusão na cabeça das pessoas. Acho que elas param no tempo.
A oficina, primeiro, é um trabalho social. Educar e aprender. Estou aprendendo mais do que ensinando.
Os alunos são persistentes. No malabares tem que ter muita persistência, tem que estar sempre lutando contra a gravidade. Tu está sempre atirando coisas pra cima, enquanto o mundo está te puxando pra baixo.
As crianças não pensam em nada quando estão treinando. Estão ali muito presentes. E eu procuro também cuidar um pouco do corpo delas, porque vejo que seguram muitas coisas no corpo. A criança, geralmente, é reprimida pelos pais o tempo inteiro, então tu sente no alongamento que elas realmente precisam daquilo.
Eu tento trabalhar, além da mente, com a coordenação motora. É técnica, totalmente. Malabares é matemática pura. Tudo é calculado. Tem uma numeração dos movimentos. Movimentos paralelos são os pares, os que cruzam são ímpares. Então, eles levam pro lado da matemática também. Ficam pensando: 4, 4, 1. E falando.
Sinto que, se tu acredita naquilo que está fazendo e não pára, evolui muito. É isso que vejo neles. Não desistem. Chegam em casa, os pais reclamam que só querem jogar malabares. A gente também construiu as bolinhas na oficina.
Eu sou malabarista porque acho que é uma forma de comunicação e porque a gente dá um choque na sociedade. Por alguns minutos dá uma interferência na rotina, no cotidiano.
A cultura circense em Porto Alegre é fraca. Meus alunos nunca foram ao circo. Então, por que não levar o circo pra um lugar (a rua) onde está ocorrendo um fluxo de pessoas?
Meus alunos comentaram: “Agora a gente já pode ir pra sinaleira!”. E eu fiquei sem saber o que falar pra eles. Me deu um branco: “Eles podem ir pra sinaleira ou não? Será que eu incentivo ou falo que não podem?”. Porque eu muitos anos fiz sinaleira. E vejo o quanto é difícil as pessoas enxergarem quando tem um artista fazendo malabares, e quando tem um menino pedindo. Muitas vezes eu estava jogando bolas laranjas e as pessoas: “Pára de jogar essas laranjas!” E me mandavam vender as laranjas. Nem olham que é uma bola. A pessoa está tão bitolada ali no dia-a-dia dela, que não acha que é um malabarista, mas uma criança pedindo. E é um artista tentando fazer com que a rotina mude!

Eu não respondi ainda pras crianças. Estava conversando com o André, um malabarista que trabalha comigo, ele estava indo pra sinaleira e me disse: “Eu acho que, se eles têm outras atividades pra fazer, melhor, ótimo. Se tem aula de dança, Hip Hop, música, capoeira… Agora, se o cara não tem o que fazer, não vejo problema dele ir jogar três bolinhas no sinal”. Eu tenho dúvida.
É difícil viver disso, mas tem gente tentando fazer alguma coisa. Eu espero que não só o malabares, mas outras artes do circo comecem a ser desenvolvidas através da educação em Porto Alegre. Legal que a Descentralização abriu essa porta, essa possibilidade. Eu sempre falo com o pessoal que faz acrobacia, que trabalha com aéreos: “Vamos lá! Tem que ser pela educação pra crescer”. Eu acredito na educação pra que ocorra um crescimento dessa arte por aqui.
Depoimento da oficineira Renata Nascimento.
Renata integra o grupo contraQueda circo urbano: www.contraqueda.blogspot.com
Fotos de Carol Martins
Crescer aprendendo

Aqui, há muitos anos fazem papel artesanal, reciclado e de fibra de bananeira. A demanda do espaço é ficar auto-suficiente na cartonagem, criar autonomia pra fazer beneficiamento. Já produzimos blocos e porta-fotos.
Quando iniciei, fizemos um trabalho com a garotada pra saber quem tinha acuidade motora. E as mães dos jovens se apropriaram do aprendizado. São jovens especiais que saem das escolas depois dos 21 anos e vêm pra cooperativa. Pela manhã tem EJA (Educação para Jovens e Adultos) e à tarde oficinas de papel, padaria e horta. Estão na aprendizagem da técnica. Querem fazer luminárias, objetos de decoração. A produção vai para o bazar que já existe aqui.
Não é um trabalho terapêutico, mas de aprendizado mesmo, que acaba ajudando na troca de conhecimento, na socialização. É um trabalho artístico com enfoque ecológico, porque o papel é feito através de resíduos de outros papéis. Só trabalhamos com reaproveitamento.

É um espaço muito agradável, um bom acolhimento. Os jovens são muito afetivos. É divertido. Acho que a humanidade só evolui se um passa o conhecimento para o outro. Adoro ensinar, mas também aprendo. Para o educador que tem um mínimo de sensibilidade, é uma troca constante. Eu não chego aqui e me esvazio. Pelo contrário! Eu sempre saio daqui muito alegrei, porque a energia circula.
Depoimento da oficineira Heloísa Franco
Sandra, cooperada e mãe de aluno:
O prédio é da prefeitura, mas são as mães dos alunos quem mantêm. Em torno de 40 cooperados que ajudam com 20 reais por mês cada um. É ótimo poder ver meu filho trabalhando, não ter que ficar dentro de casa sem atividade nenhuma. As oficinas fazem bem pra eles. É a primeira parceria com a Descentralização. Pra nós, caiu do céu.
Sobre a perspectiva das pedras

Incentivar a reflexão e a atuação de pessoas que residem em regiões descentralizadas de uma metrópole, num determinado campo da arte ou ação educativa, cultural e social, e que participam ou não de atividades artísticas, ou são usuários de equipamentos culturais e esportivos, não é uma via fácil de percorrer. Nesse caminho pedregoso, alternativas são experimentadas e apreendidas em conjunto.
Adaptar conhecimentos adquiridos numa trajetória pessoal e repassá-los para determinadas pessoas que buscam saberes, quando feito com paixão e responsabilidade, pode ser transformador para ambas as partes. No entanto, essa transformação demora a acontecer, quando acontece.
Muitas ferramentas são interessantes para talhar as pedras. Pedras na forma de cidadãos e ações sócio-culturais. Pedras de nós e do outro. Pedras orgânicas, situacionais e institucionais. Pedras de toque. Acreditem, os tais instrumentos de entalhe só serão descobertos num processo próprio. Próprio de quem não tem medo de perguntar e responder questionando.
Por Abel Börba, oficineiro de Fotografia, artista fotográfico e pesquisador multimídia.
Oficina de Fotografia
[SenFoto] – Sensibilização Fotográfica: as Palavras, as Formas, os Objetos e os Seres
Região Partenon e Assunção
www.senfoto.wordpress.com
Foto realizada na oficina.
A criação anárquica e apaixonada de um artista nato (e de seus pequenos aprendizes)
De longe é uma festa, tudo colorido, a criançada correndo de um lado pro outro. De perto se vê que estão fazendo arte, literalmente e em ambos os sentidos. Resolveram que hoje é dia de pintar as paredes e não consultaram a direção da Associação dos Moradores do Bairro Bom Jesus. Mas não é George quem vai sufocar esta vontade da gurizada, ele também um inquieto. O que faz é botar “lenha”, ou tinta, e comandar o caos, a bagunça criativa de uma meninada sorridente e de pincel na mão.
Depoimento de George Pinto*
Eles vêm com expectativa de aula, e aqui eu faço que as coisas fiquem bem à vontade, que sejam bastante livres. A gente vai colocando técnicas, vai exigindo sem eles notarem que estão sendo exigidos. A primeira intenção deles é brincar com barro, pintar com tinta. Eu não digo que não e vou fazendo eles trabalharem, produzirem, ver a arte como uma coisa mais séria, não só como brinquedo. Mas sem dizer que não é brinquedo. A gente brinca bastante também.
Aqui nós esquecemos das coisas lá fora. Eu esqueço o George Pinto, como eles também se esquecem de si. Eles vêm pra cá e não querem sair. Não me preocupo com horário, me coloco à disposição. Não é importante só pra eles, é muito importante pra mim. Eu me entrego a isso. Não me preocupo em fazer por ganhar. Já fiz muito sem ganhar. Graças a Deus eu já tô ganhando um pouco, né! Mas a minha preocupação é colocar uma sementinha pra eles. Porque, quando eu era guri, briguei muito pra ser quem sou hoje. Eu já vim artista e desesperadamente não sabia. Meus pais também não sabiam. Achavam que eu era, de repente, um louco: “Esse guri, aí, tem que internar!”.
“Querem pintar?”. Vamos pintar. “Querem desenhar?”. Vamos desenhar. “Querem mexer na argila?”. Vamos mexer na argila. Deixo com eles. Eu tento botar um pouquinho de rédea pra não ficar só na brincadeira, porque eles já brincam em casa. É claro que nem todos, né. A minha preocupação é dirigir a brincadeira.
Sou oficineiro há cinco anos. Alguns que foram meus alunos agora estão trabalhando na área. Um era office boy no Banco do Brasil, o cara fez oficina comigo e largou, enlouqueceu que nem eu. É artista hoje. E ele diz que eu sou o culpado. E está sobrevivendo. Tem o Grilo também, que é outro cara muito legal, é assim tipo hippie, agora já é pai. Então, tu vê quanto tempo faz. O cara fez algumas aulinhas comigo… Porque, o cara que é artista, tu dá um empurrãozinho e: “Era isso que eu precisava!”. E vai. Eu digo assim: “Não para! Se alguém diz pra tu parar, não para!”. Porque cansaram de me dizer: “Como é que tu vai sobreviver? O dia que tiver filho, como é que vai sustentar?”. E eu nunca me preocupei com isso, só em fazer arte. Nunca me preocupando em vender, se eu vou ficar com o atelier cheio, só me preocupando em produzir. Sempre botando o sentimento pra fora.
Eu crio loucamente. Não vejo uma televisão nem um futebol se eu não tô riscando. Ficam loucos lá em casa: “Tu não vai parar?”. Então, eu paro e, quando vejo, já estou riscando de novo. Me dá prazer.
Acho que só se nega o direito de criar quando não tem material. A realidade social pode atrapalhar, mas não barra. Porque eu, no começo, ia de bicicleta lá pro lado da Petrobras, em Canoas, pra cavar o meu barro, porque não tinha dinheiro pra comprar argila.
Às vezes se coloca que, se tu não tem dinheiro, não pode fazer, mas eu ia loucamente atrás. Tanto que, como profissão, são 33 anos. E dizem meus parentes que, desde os quatro anos, eu faço (arte). Tenho 53 anos. Vim pra isso. Depende muito da criatura. Eu vim de vila. É um dos motivos pelos quais eu gosto de trabalhar na Descentralização. Eu não trabalharia como coordenador porque eu gosto de estar na ponta, de dar aula, gosto de estar na vila.
É uma maneira de retribuir aquilo que ganhei. Tu sente o que é viver na vila, não ter condições. Quando tu tem oportunidade, acho que tem que fazer a volta. Então, eu tô retornando e dando o máximo que posso. Porque a gente ganha pouco. Custam a pagar também (risos). Mas é gratificante. Não é pelo dinheiro, mas, sim, por aquilo que penso, pelo que senti, pelo que já passei. Então, se dois ali resolverem que vieram pra isso, vão ter todo o meu apoio.
Até o material é o que a tia Tânia trouxe, é o que eu trouxe de casa, pincéis, tintas, é o que a gente pediu pros alunos trazerem. E outra: não pedi também pra pintar as paredes. Eles resolveram pintar, começaram a riscar, e a gente pintou. Pode até dar problema, mas aí vou matar no peito porque eu tô coordenando. Eu adoro esse fervo, não coordeno nada! Olha lá: tem coordenação lá? Parece que eles sabiam que vinham pra filmar, fotografar…

Eu trouxe plástico, raio-X, uns vazados pra facilitar a vidinha deles e… Que nada! Vamos direto pra parede. Então, é o que está saindo aí. Mas eu acredito que é assim, não dá pra ficar muito rotulado. Não dá pra dizer: “Ah, tem que fazer assim porque esta borboleta não vai ficar interessante”. Como não vai ficar interessante, se quem está fazendo é uma criança de quatro, seis anos? Comigo é assim, não tem idade. Hoje mesmo tá cheio, eu não fiz chamada, não deu tempo. Meu café tá por aí. Olha ali onde está o meu café. Não consegui tomar. Mas o problema é bom.
Eu não gosto de muito papo: “vamos fazer e acontecer” – e a coisa não anda. Cheguei, tinha dois, e eu: “Trouxe isto, trouxe aquilo”. Aí, veio a tia Tânia com meia dúzia, depois chegou mais quatro, depois mais duas. E vão trabalhando. Então, coordenar no sentido de não se machucarem, de não ter atrito, do material não ir fora por nada. Porque tem que deixar, é sentimento. Isso que é arte: é tu chegar e botar pra fora.
Olha, o salário podia melhorar. E eu acho que a divulgação aqui não é boa. Precisa de mais porque o bairro é muito grande. A divulgação fica muito pro oficineiro. Chego a fazer boca a boca com eles: “Não tem nenhum George Pinto na tua aula? Alguém que desenha, que é muito elétrico, que incomoda muito?”. “Ah, tem sim, ele é chato que nem tu”, respondem. E eu: “Convida ele pra aula”. Sim, porque eu era um terror quando guri. Incompreendido! (risos) Então, eu vejo esses anjinhos que incomodam muito a professora, ou ele vai ser um louco ou vai ser um louco artista. Também tanto faz porque não tem muita diferença. (risos) Se o cara não gostou, tá liberado. Comigo não tem essa de ter que manter. “Tá estudando?”. Tá. A mais nenezinha tá no jardim. Aqui eu cobro isso, tem que estar estudando.
To achando o máximo o cavalo que eles pintaram e agora o mundo (sobre as crianças desenhando na parede). E não tem a minha mão. É eles. Eu digo como fazer. Até nas esculturas, quando eu faço pra eles verem, eu digo: “É assim”. E desmancho.
Eu sempre batizo. Pego argila e mando fechar o olho: “Abre a boca!”. Aí, eles acham que eu vou botar aquele monte de argila, e eu só passo o dedo. Eles adoram.
Eu gostaria de ficar toda a vida dando aula na periferia. Não gostaria de dar aula lá no Moinhos de Vento. Não trocaria. Claro que lá também tem muita gente carente, mas eu prefiro pra cá. Vai dizer pra eles que são carentes… São carentes! Só porque mora lá nos “granfa”, não são carentes?
* George Pinto é artista de nascença. De menino incompreendido por teimar em esculpir o mundo do seu jeito ao escultor escolhido para coordenar o trabalho artístico do Museu do Percurso do Negro em Porto Alegre, projeto apoiado pela UNESCO.

Zola Laguna Mastroberti, 70 anos, professora de pintura por 17 anos e aluna de George na Associação dos Moradores da Vila Jardim.
A gente trabalha com qualquer ferramenta, espátula de unha, o que tiver. Fizemos umas estatuetas que estão quase prontas, só faltam os pés. Esta está na segunda aula, é um senhor tomando chimarrão. Demora pra ficar bonito. Eu levei pra casa. Depois de pronto é que eu aliso. Não é difícil, mas trabalhoso. É terapia. Quando a gente vê já é noite.

