Revista da Descentralização

cultura para transformar

A criação anárquica e apaixonada de um artista nato (e de seus pequenos aprendizes)

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De longe é uma festa, tudo colorido, a criançada correndo de um lado pro outro. De perto se vê que estão fazendo arte, literalmente e em ambos os sentidos. Resolveram que hoje é dia de pintar as paredes e não consultaram a direção da Associação dos Moradores do Bairro Bom Jesus. Mas não é George quem vai sufocar esta vontade da gurizada, ele também um inquieto. O que faz é botar “lenha”, ou tinta, e comandar o caos, a bagunça criativa de uma meninada sorridente e de pincel na mão.

Depoimento de George Pinto*

Eles vêm com expectativa de aula, e aqui eu faço que as coisas fiquem bem à vontade, que sejam bastante livres. A gente vai colocando técnicas, vai exigindo sem eles notarem que estão sendo exigidos. A primeira intenção deles é brincar com barro, pintar com tinta. Eu não digo que não e vou fazendo eles trabalharem, produzirem, ver a arte como uma coisa mais séria, não só como brinquedo. Mas sem dizer que não é brinquedo. A gente brinca bastante também.

DSC01490Aqui nós esquecemos das coisas lá fora. Eu esqueço o George Pinto, como eles também se esquecem de si. Eles vêm pra cá e não querem sair. Não me preocupo com horário, me coloco à disposição. Não é importante só pra eles, é muito importante pra mim. Eu me entrego a isso. Não me preocupo em fazer por ganhar. Já fiz muito sem ganhar. Graças a Deus eu já tô ganhando um pouco, né! Mas a minha preocupação é colocar uma sementinha pra eles. Porque, quando eu era guri, briguei muito pra ser quem sou hoje. Eu já vim artista e desesperadamente não sabia. Meus pais também não sabiam. Achavam que eu era, de repente, um louco: “Esse guri, aí, tem que internar!”.

“Querem pintar?”. Vamos pintar. “Querem desenhar?”. Vamos desenhar.  “Querem mexer na argila?”. Vamos mexer na argila. Deixo com eles. Eu tento botar um pouquinho de rédea pra não ficar só na brincadeira, porque eles já brincam em casa. É claro que nem todos, né. A minha preocupação é dirigir a brincadeira.

Sou oficineiro há cinco anos. Alguns que foram meus alunos agora estão trabalhando na área. Um era office boy no Banco do Brasil, o cara fez oficina comigo e largou, enlouqueceu que nem eu. É artista hoje.  E ele diz que eu sou o culpado. E está sobrevivendo. Tem o Grilo também, que é outro cara muito legal, é assim tipo hippie, agora já é pai. Então, tu vê quanto tempo faz. O cara fez algumas aulinhas comigo…  Porque, o cara que é artista, tu dá um empurrãozinho e: “Era isso que eu precisava!”. E vai. Eu digo assim: “Não para! Se alguém diz pra tu parar, não para!”. Porque cansaram de me dizer: “Como é que tu vai sobreviver? O dia que tiver filho, como é que vai sustentar?”. E eu nunca me preocupei com isso, só em fazer arte. Nunca me preocupando em vender, se eu vou ficar com o atelier cheio, só me preocupando em produzir. Sempre botando o sentimento pra fora.

Eu crio loucamente. Não vejo uma televisão nem um futebol se eu não tô riscando. Ficam loucos lá em casa: “Tu não vai parar?”. Então, eu paro e, quando vejo, já estou riscando de novo. Me dá prazer.

Acho que só se nega o direito de criar quando não tem material. A realidade social pode atrapalhar, mas não barra. Porque eu, no começo, ia de bicicleta lá pro lado da Petrobras, em Canoas, pra cavar o meu barro, porque não tinha dinheiro pra comprar argila.

Às vezes se coloca que, se tu não tem dinheiro, não pode fazer, mas eu ia loucamente atrás. Tanto que, como profissão, são 33 anos. E dizem meus parentes que, desde os quatro anos, eu faço (arte). Tenho 53 anos. Vim pra isso. Depende muito da criatura. Eu vim de vila. É um dos motivos pelos quais eu gosto de trabalhar na Descentralização. Eu não trabalharia como coordenador porque eu gosto de estar na ponta, de dar aula, gosto de estar na vila.

É uma maneira de retribuir aquilo que ganhei. Tu sente o que é viver na vila, não ter condições. Quando tu tem oportunidade, acho que tem que fazer a volta. Então, eu tô retornando e dando o máximo que posso. Porque a gente ganha pouco. Custam a pagar também (risos). Mas é gratificante. Não é pelo dinheiro, mas, sim, por aquilo que penso, pelo que senti, pelo que já passei. Então, se dois ali resolverem que vieram pra isso, vão ter todo o meu apoio.  

Até o material é o que a tia Tânia trouxe, é o que eu trouxe de casa, pincéis, tintas, é o que a gente pediu pros alunos trazerem. E outra: não pedi também pra pintar as paredes. Eles resolveram pintar, começaram a riscar, e a gente pintou. Pode até dar problema, mas aí vou matar no peito porque eu tô coordenando. Eu adoro esse fervo, não coordeno nada! Olha lá: tem coordenação lá? Parece que eles sabiam que vinham pra filmar, fotografar…

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Eu trouxe plástico, raio-X, uns vazados pra facilitar a vidinha deles e… Que nada! Vamos direto pra parede. Então, é o que está saindo aí. Mas eu acredito que é assim, não dá pra ficar muito rotulado. Não dá pra dizer: “Ah, tem que fazer assim porque esta borboleta não vai ficar interessante”. Como não vai ficar interessante, se quem está fazendo é uma criança de quatro, seis anos? Comigo é assim, não tem idade. Hoje mesmo tá cheio, eu não fiz chamada, não deu tempo. Meu café tá por aí. Olha ali onde está o meu café. Não consegui tomar. Mas o problema é bom.

Eu não gosto de muito papo: “vamos fazer e acontecer” – e a coisa não anda. Cheguei, tinha dois, e eu: “Trouxe isto, trouxe aquilo”. Aí, veio a tia Tânia com meia dúzia, depois chegou mais quatro, depois mais duas. E vão trabalhando. Então, coordenar no sentido de não se machucarem, de não ter atrito, do material não ir fora por nada. Porque tem que deixar, é sentimento. Isso que é arte: é tu chegar e botar pra fora.

Olha, o salário podia melhorar. E eu acho que a divulgação aqui não é boa. Precisa de mais porque o bairro é muito grande. A divulgação fica muito pro oficineiro. Chego a fazer boca a boca com eles: “Não tem nenhum George Pinto na tua aula? Alguém que desenha, que é muito elétrico, que incomoda muito?”. “Ah, tem sim, ele é chato que nem tu”, respondem. E eu: “Convida ele pra aula”. Sim, porque eu era um terror quando guri. Incompreendido! (risos) Então, eu vejo esses anjinhos que incomodam muito a professora, ou ele vai ser um louco ou vai ser um louco artista. Também tanto faz porque não tem muita diferença. (risos) Se o cara não gostou, tá liberado. Comigo não tem essa de ter que manter. “Tá estudando?”. Tá. A mais nenezinha tá no jardim. Aqui eu cobro isso, tem que estar estudando.

To achando o máximo o cavalo que eles pintaram e agora o mundo (sobre as crianças desenhando na parede). E não tem a minha mão. É eles. Eu digo como fazer. Até nas esculturas, quando eu faço pra eles verem, eu digo: “É assim”. E desmancho.

Eu sempre batizo. Pego argila e mando fechar o olho: “Abre a boca!”. Aí, eles acham que eu vou botar aquele monte de argila, e eu só passo o dedo. Eles adoram.

Eu gostaria de ficar toda a vida dando aula na periferia. Não gostaria de dar aula lá no Moinhos de Vento. Não trocaria. Claro que lá também tem muita gente carente, mas eu prefiro pra cá. Vai dizer pra eles que são carentes… São carentes! Só porque mora lá nos “granfa”, não são carentes?

* George Pinto é artista de nascença. De menino incompreendido por teimar em esculpir o mundo do seu jeito ao escultor escolhido para coordenar o trabalho artístico do Museu do Percurso do Negro em Porto Alegre, projeto apoiado pela UNESCO.

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Zola Laguna Mastroberti, 70 anos, professora de pintura por 17 anos e aluna de George na Associação dos Moradores da Vila Jardim.

 

 

 

A gente trabalha com qualquer ferramenta, espátula de unha, o que tiver.  Fizemos umas estatuetas que estão quase prontas, só faltam os pés. Esta está na segunda aula, é um senhor tomando chimarrão. Demora pra ficar bonito. Eu levei pra casa. Depois de pronto é que eu aliso. Não é difícil, mas trabalhoso. É terapia. Quando a gente vê já é noite.

Escrito por Jefferson

09/11/2009 às 14:32

Publicado em Oficinas

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