Dançando se aprende sobre diferenças
Depoimento de Aline Karpinski
Eu sempre procuro conhecer a turma primeiro, não imponho qual aula vou dar. Os alunos com quem estou trabalhando gostam muito de dança de salão. Só que procuro trabalhar um pouco de consciência corporal, postura, coisas que tu possa levar para o dia-a-dia. Procuro que eles tenham mais conhecimento do corpo, que conheçam o corpo do colega, que vejam que dançar com uma pessoa é diferente de dançar com outra. Cada um tem uma corporeidade. Eu tento ir refinando essas percepções. Tento que o aluno desenvolva essa sensibilidade, de ver diferenças que passam pelo fator humano.

Não é só a dança. Nenhuma arte é só a arte. Tu pode ir além, trabalhar outros aspectos que são importantes. Essa relação entre colegas, conhecer o corpo dele te propõe criar uma amizade, um vínculo, confiança. Ser mais sensível às facilidades e dificuldades da outra pessoa.
Gosto de levar pra eles que não existe impossível. Quem acha que não tem mais capacidade, tenta, vai devagar e daqui a pouco está fazendo. Então, é importante não limitar o olhar, o pensamento, o corpo.
Acho que todas as oficinas trazem essa coisa do prazer… Tu te sente bem. É, por um lado terapêutica, repercute na auto-estima, mas por outro trabalha a visão política. No momento em que vou dançar com o colega, que eu vi que ele tem dificuldade, isso já tá modificando o meu pensamento, e quando faz pensar diferente é ético, porque ética é a reflexão. A arte tem esse poder de agregar todo mundo, não importa quem seja.
Esse é meu quarto ano como oficineira. Nesse tempo, comecei a ver como é rico o olhar do outro, como a outra pessoa pensa legal, pra frente! E tu quer pegar um pouco daquela energia pra ti. Tem muita gente que faz a oficina que tem a cabeça super aberta, e isso te ensina muito. Passei a notar que sou rígida em certas coisas, que sou fechada, antiga. E comecei a pegar muita coisa legal dos alunos e trazer pra minha vida. Eu não tinha a capacidade de rir das coisas. Hoje, não vejo mais as coisas de uma maneira tão dramática. Comecei a rir, a olhar a vida diferente.

Aluno Jair Nichele, 66 anos, aposentado:
Nós precisamos fazer exercícios, alguma atividade pra alma. A oficina de dança é uma maneira da gente, novamente, movimentar o corpo. Eu sou capoeirista. Estou com problemas no joelho, no ombro, mas dentro da minha possibilidade, vou fazendo alguma coisa. Não consigo acompanhar a gurizada, mas…
Fiquei mais ou menos 40 anos parado. Eu fazia o serviço, mas não atividade. Aí, depois que comecei, só vou parar quando for pra debaixo de sete palmos. Porque precisa. Dói aqui, dói lá, mas tudo bem, a gente sabe que dói. Se tu não faz vai doer mais ainda. Então prolongar a vida com bem estar, com saúde.
Tu fica conhecendo, às vezes, até o vizinho que não teve oportunidade antes. É muito bom porque integra as pessoas.
Aluna Tereza da Silva:
Pra mim é uma terapia, bom pra cabeça. Gosto muito de dançar. Pode ter tempo ruim que eu não falto. Às vezes, saio de casa bem estressada, venho aqui, a gente dança, conversa com os amigos e esqueço tudo. Saio de alma lavada.